Acidentes do trabalho com entregadores saltam 35% no Brasil e categoria entra no top 10 de riscos de saúde do país
Dados do Ministério da Saúde revelam mais de 34 mil registros no Sistema de Informação de Agravos de Notificação entre 2023 e 2026
Brasília (DF) – O crescimento expressivo do ecossistema de entregas por aplicativo e frete expresso no Brasil vem acompanhado de um diagnóstico preocupante para a saúde pública e as relações de trabalho. Dados inéditos do Ministério da Saúde (MS), encaminhados ao Ministério Público do Trabalho (MPT), revelam que o país registrou 34.211 acidentes do trabalho envolvendo entregadores motociclistas e ciclistas entre 2023 e julho de 2026.
A escalada do problema fez com que a ocupação dos motociclistas avançasse para a 10ª posição entre as mais notificadas por acidente do trabalho no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), impulsionada por ações do órgão como a Nota Técnica nº 14/2025. O levantamento do departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador atendeu a uma solicitação do MPT. O estudo filtrou as notificações com base na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) para ciclistas mensageiros (bikeboys) e motofretistas.
A realidade das ruas
O ano de 2025 concentrou o maior volume da série histórica, atingindo 11.579 notificações no Brasil, o que representa alta de 34,92% em comparação aos 8.582 casos contabilizados em 2023. Do total acumulado de 34.211 ocorrências no país, a maioria dos vitimados atua sobre duas rodas motorizadas: foram 34.004 acidentes com motofretistas contra 207 envolvendo entregadores ciclistas.
Distribuição dos casos de Acidente do Trabalho (Brasil)
2023: Motociclistas: 8.582 | Ciclistas: 48 | Total: 8.630
2024: Motociclistas: 9.987 | Ciclistas: 47 | Total: 10.034
2025: Motociclistas: 11.579 | Ciclistas: 83 | Total: 11.662
2026*: Motociclistas: 3.856 | Ciclistas: 29 | Total: 3.885
TOTAL: Motociclistas: 34.004 | Ciclistas: 207 | Total Geral: 34.211
*Dados atualizados até meados de 2026.
Apesar da dimensão das estatísticas oficiais, que mantêm uma média próxima a 10 mil acidentes notificados ao ano, o Ministério da Saúde ressalta que os números reais tendem a ser significativamente superiores. A acidentalidade nessa área enfrenta historicamente alto grau de subnotificação, uma vez que parte considerável dos trabalhadores atua de forma informal ou sem vínculo empregatício direto, o que dificulta o preenchimento da Comunicação de Acidente do Trabalho (CAT) ou o registro nos serviços de saúde. Além disso, os dados referentes ao ciclo de 2024 a 2026 continuam passando por etapas de qualificação e consolidação.
Desdobramentos
O mapeamento também detalhou o panorama no Estado da Bahia, onde foram computados 777 acidentes do trabalho no mesmo intervalo. A evolução na Bahia acompanhou a tendência nacional de pico em 2025: o estado registrou 120 casos em 2023 (15,44%), subiu para 207 em 2024 (26,64%) e disparou para 374 em 2025 (48,13% do total local).
Para o MPT, o compartilhamento dessas informações serve como subsídio estratégico para direcionar fiscalizações, instruir procedimentos investigativos e estruturar políticas públicas de prevenção. Os dados devem embasar ações voltadas à responsabilização de plataformas digitais e empresas de transporte de mercadorias, visando à mitigação dos riscos inerentes à profissão e à promoção de ambientes de trabalho seguros.